HQ Memória: Outubro 2006 Untitled Document




































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sexta-feira, outubro 20, 2006

AL CAPP E FERDINANDO



AI Capp, ou Alfred Gerald Caplln, nasceu em 28 de setembro de 1909 em New Haven, Connectticut, E.U.A. Seus pais eram imigrantes Lituanos muito pobres, e foi nessa pobreza que AI Capp passou a infância e a adolescência, sempre invejando de longe o bem-estar da classe média americana. Aos nove anos, atropelado por um bonde, perdeu uma perna, o que o marcaria para o resto da vida. A vocação dos quadrinhos surgiria por necessidade: sabendo que Bud Fischer, o autor de Mutt e Jeff, ganhava 3000 dólares por semana, Capp tentou essa profissão aos 19 anos, fazendo uma tira, Col. Gilfeather em 1927, para a Associated Press. Foi o seu primeiro emprego e durou apenas seis meses, pois Capp se transferiu para Nova York, onde um novo atropelamento iria mudar a sua vida: desta vez não perdeu nenhum membro, mas ganhou os pedidos de desculpas do atropelador, Ham Fischer, o criador de Joe Sopapo (Joe Palooka). Capp estava procurando emprego com seu portfólio debaixo do braço, e ao ver os desenhos espalhados pela rua, Fischer contratou-o como assistente. Apesar de Fischer ter sido um excelente trampolim para ele, Capp não foi muito feliz no período em que trabalhou como "ghost" de Joe Sopapo. As promessas de fama e fortuna feitas por Fischer se resumiam a um magro salário, e por isso Capp resolveu tentar a vida por conta própria. Depois de ter estudado na Boston Museum School e na Philadelphia Academy of Fine Arts.



Um protótipo de Ferdinando foi submetido ao King Features Syndicate, mas ante a exigência de transferir o personagem da roça para a cidade grande, Capp tratou de procurar outro sindicato. Enfim, em 1934, ele conseguiu que a United Feature se interessasse em distribuir a tira como ele havia criado, nas páginas do The Mirror, de Nova Vork no dia 20 de agosto de 1934 levando a assinatura do até então desconhecido "AI G. Cap" (Alfred Gerald Caplin), que logo aboliria o seu nome do meio e acrescentaria um segundo "p" ao sobrenome. Nascia assim uma das mais importantes histórias em quadrinhos de todos os tempos.

Poucos meses de publicação foram suficientes para que os personagens principais atingissem as características que ainda hoje os distinguem. Daí por diante foi um sucesso absoluto. Capp ficaria na auge por cerca de três décadas, quando o cansaço fez a história decair sensivelmente. Mas o sucesso mesmo só explodiu em 1939, quando, entre outras coisas, Capp retomou uma tradição legalizada na Escócia em 1288 (e tamém na França e na Itália, no século XV) e inventou O Dia de Maria Cebola (ver Gibi -Semanal n° 32 - RGE). A importância de AI Capp na história das histórias em quadrinhos é indiscutível: Ferdinando está entre as poucas obras de autor que ajudaram as HQ's.a tornarem-se definitivamente adultas.


Personagens e mitos, tradições e hipocrisia, convenções e preconceitos serviram para que Capp criasse um mundo de sátiras ao canibalismo industrial, ao macarthysmo, à política de ajuda aos países, suas alianças militares, à sociedade de consumo e, em suma, ao próprio american way of life. Porque Brejo Seco (Dogpatch), localizada no sul dos Estados Unidos e povoada por ignorantes empedernidos, é a outra face da América. Mesmo modificados pelo estilo de Capp, os "casos" de Brejo Seco falam sempre da existência de um macrocosmo sobressaltado e sublinham seus momentos cruciais, tornando-se assim um comenário, mais ou menos agressivo, mais ou menos pungente, da vida cotidiana do país. E esse aspecto de crônica diária, engraçada e crítica ao mesmo tempo, chegou até a levar o escritor John Steinbeck ("A Leste do Éden") a recomendar AI Capp para o prêmio Nobel (1953). "Antes dele, somente Cervane, Rabelais conseguiram criticar tão caustie ao mesmo tempo tornar essa crítica aceita por todos e divertida. Para mim, Capp é o melhor escritor do mundo", disse Steinbeck. Ferdinando é uma figura solidamente enraizada nos Estados Unidos. Acredita na salvaguarda do sistema através de reformas; é honesto, desinteressado, altruísta, eufórico e vibrante. Com todos os seus erros e injustiças, a melhor América é ainda aquela que tem como cidadão um tipo como ele, sincero em seus propósitos de modificar as convenções: uma América contestada, não rejeitada.

À parte o traço inconfundível, uma das tõnlcas do trabalho de Al Capp sempre foram os nomes dos personagens. Álvaro de Moya, fanático por Ferdinando e em especial pelos Shmoos, dá em seu livro "Shazam" uma bem elaborada relação dos nomes mais fantásticos que aparecem em Ferdinando a maioria, infelizmente, Impossível de traduzir: Marryin' Sam, Stupefyin' Jones, EarMcGoon, o azarado Joe Btfsplk, Mlnnie Moustache, Wild BiII Hickup, Colossal McGenius, Reactionary J. Repugnant, Moonbeam McSwlne, EddieMcShunk, Mitzi Mudlark, Apassionata von Climax, o maestro Concertina Constlpato... E ainda Disgusting Jones, Harry Raspoutlne Truman, Daphné Degrandlngham, Dumpington van Lump, Basil Bassoon e Clark Bagel, entre outros. "Vokum" nome original da família (Buscapé, no Brasil) é uma mistura de yokel (camponês) e hokum (absurdo). O "Ii'I" (de "little", pequeno) de LI'I Abner já mostra bem a predileção de Capp por nomes que ridicularizem de saída aqueles a quem pertencem. Violeta, mulher de Ferdinando, no original é Daisy Mae. Xulipa Buscapé, a mãe, é Mammy Yokum; Brejo Seco é Dogpatch, e a si mesmo Capp caricaturou como AI Vapp.
Capp também teve seu time de "ghosts" formado por nomes como Frank Frazetta e Basil Wolwerton, estes então em início de carreira.




Ferdinando Buscapé era um rapaz de seus eternos 19 anos que morava com a mãe e o pai, Xulipa e Lúcifer Buscapé, na miserável Brejo Seco, nas montanhas do Kentucky. Nesse lugarejo inexistente nos mapas se desenvolveria todo um universo de personagens que enriqueceriam ainda mais a série: Violeta Buscapé (originalmente da famllia Scragg, que após dezoito anos de tentativas conseguiu agarrar Ferdinando no Dia de Maria Cebola), os famigerados Scraggs, a imunda Dulçurosa Suíno (Moonbeam McSwlne), o remanescente de uma tribo de índios que habitava o local, Gambá Solitário e seu companheiro Joe Cabeleira, Joe Míope, Joe Btflspk, Samuel Casamenteiro, a porca Salomé (último remanescente da raça dos Hammus Alabammus) e dezenas de outros.



A grande novidade da tira era que não só os personagens eram caipiras, como falavam exatamente como tal. A ingenuidade de Ferdinando servia de ponto de partida para a maioria das histórias, todas elas calcadas em situações praticamente absurdas. O sucesso não se fez de rogado e logo Ferdinando conquistava uma posição de prestígio no universo do quadrinho norte americano, acarretando uma avalanche de imitações. Uma delas Abbie and Slats (Zé Mulambo) roteirizada pelo próprio Capp. Em 1935, incorporava-se à tira diária uma página dominical colorida e a saga de Ferdinando prosseguia. Durante pelo menos trinta anos o sucesso foi absoluto: Ferdinando virou capa de revistas como Time e Life e contava com numerosas legiões de fãs. Outros personagens foram se incorporando às histórias e a fórmula satírica da tira se consolidou. Capp não poupava ninguém, nem mesmo os próprios quadrinhos, e em 1942 surgia outro personagem tão forte quanto Ferdinando, o detetive Joe Cometa (Fearless Fosdick), criado à imagem e semelhançade Dick Tracy e cujas aventuras Ferdinando passaria a acompanhar desde então, idolatrando o seu herói. Tanto que, quando Joe Cometa se casou num episódio de 1952, imediatamente Ferdinando se deixou agarrar por Violeta e se casou também. Só que, se para Cometa tudo não passaria de um sonho, Ferdinando estava irremediavelmente fisgado para o resto da vida.



O casamento deu frutos: após uma gravidez tão prolongada que alguns leitores chegaram a enviar livros de medicina para Capp, nascia em 1953 o filho do casal, Joãozinho Honesto (Honest Abe). Mas a família Buscapé ainda teria um novo acréscimo na figura de João Magriço (Tiny Yokum), um irmão de Ferdinando que havia desaparecido desde que era um bebê por um descuido de Xulipa e voltaria 17 anos depois já como um forte rapagão. Magriço fora criado assim tão de repente para ocupar a vaga de Ferdinando na tradicional corrida do Dia de Maria Cebola (Sadie Hawkins Days), feriado anual em Brejo Seco e onde toda moça casadoira tratava de perseguir os rapazes solteiros, segundo um tradicional costume local.
Além dos humanos, Capp criou algumas espécies novas de animais, notadamente os shmoos, surgidos em 1948 e possivelmente a mais genial invenção de Capp: com mil e uma utilidades (além de serem totalmente aproveitáveis como alimento e outras coisas, os shmoos tinham o dom de se multiplicar com uma rapidez surpreendente), eles eram a resposta para todos os problemas da humanidade: com um shmoo em casa, ninguém mais passava fome ou necessidade. Mas, como representavam a falência total do sistema capitalista, ossimpáticos animaizinhos foram considerados ilegais e voltaram para sempre ao Vale dos Shmoos (salvo algumas retomadas de Capp ao tema, quando um ou outro escapava e provocava pânico entre os homens de negócios ou as autoridades).




Qualquer acontecimento era ponto de partida para histórias num eterno tom de farsa e que metiam Ferdinando e seus parentes e vizinhos nas mais absurdas situações. Envolvendo personagens reais com o pessoal de Brejo Seco, Al Capp não perdoava ninguém e desafiava qualquer um dos alicerces da sociedade.Com o passar dos anos, a pena de AI Capp se tornou bem menos agressiva. Talvez por ele ter se transformado num dos mais populares representantes da classe alta, assumindo também todas as suas características exteriores e intelectuais. Afirmou em várias ocasiões que seu trabalho não tinha outro sentido que o de lhe trazer dinheiro, "a riqueza nunca possuída e sempre desejada". Mostrava-se convencido da divisão dos homens em duas classes: a que detém o poder, e a que não conta. E quando um jornalista certa vez lhe perguntou qual tinha sido sua motivação para criar Ferdinando, Capp respondeu: "Fome. Eu tinha muita fome naquela época. Então criei Ferdinando. Transformou-se em um grande negócio e eu engordei. Daí em diante, a motivação tem sido ganância." Em pleno macarthismo, teve a ousadia de criar os shmoos; tido como liberal nos anos 40 e 50, Capp de repente deu uma guinada e tornou a história bastante conservadora dos anos 60 em diante, o que lhe valeu protestos dos leitores. A partir daí a história foi declinando e os clichês se repetindo.Outro fato marcante foi quando Al Capp entrevistou John Lennon e Yoko Ono no programa "Bed In", onde ao metralhar com toda arrogância e cinismo os ideais de Lennon/Yoko os telespectadores testemunharam um Al Capp bem diferente daquele dos anos 30/40, ele agora representava tudo aquilo que sempre combatera (pelo menos no papel). Em 1977, fechou o estúdio. e se aposentou, já velho e doente. Após uma longa enfermidade, que nos últimos dois anos o mantivera preso a uma cadeira de rodas, veio a falecer dois anos depois em relativa obscuridade em novembro de 1979.



Além das tiras em quadrinhos, Ferdinando ganhou dois filmes para o cinema nos anos de 1940 e 1959, ambos com o título: Li´l Abner, sendo que a versão de 1940 contava com o ator Buster Keaton no papel título. Já a versão de 1959 foi produzida no formato de comédia-musical com a presença de Julie Newmar novinha em folha. Houveram duas tentativas de transformar Ferdinando (Li´l Abner) em série de tv, com 2 pilotos produzidos respectivamente nos anos de 1967 e 1971.



Melhor destino teve a peça de teatro: Li´l Abner encenada em 2005 pelo grupo teatral Barn Theatre com o seguine elenco:
Polegar Pequeno.......................John M. Moauro
Joe Cabeleira........................... Andy Planck
Dulçurosa Suíno..................... Ellen Schnier
Sam Casamenteiro.................. Scott Burkell
Violeta.................................... Kelley Bray
Lúcifer................................. .. Anthony Christian
Xulipa..................................... Penelope Alex
Ferdinando............................. Guy Lemonnier
Escapulino Olho-Frio............. Ryan Stutz
o diretor Harlie Misovye soube transpor para o palco o espírito da criação de Al Capp.
A tv brasileira chegou a exibir a série The Beverly Hillbillies (com o título oportuno de A Família Buscapé) que nada tem a ver com a criação de Al Capp, assim como a versão para o cinema realizada em 1993.




No Brasil, Ferdinando surgiu nas páginas do Globo Juvenil e do Gibi, tendo sido publicado em vários jornais, notadamente O Globo. Apareceu em vários almanaques do Gibi e do Globo Juvenil, e teve sua revista própria apenas em 1961, que duraria 32 números, parando em 1968, as histórias publicadas na revista Ferdinando eram oriundas das páginas dominicais dos jornais norte-americanos. O primeiro número teve capa de Gutemberg Monteiro (que residiu nos EUA, desenhando as tiras de Tom e Jerry sob o pseudônimo de Goot) e saiu em março-abril de 1961, sendo re-impresso na década de 80, em edição especial. A coleção da revista Ferdinando dá uma visão parcial da obra de Capp no período de 50/60, já que as melhores histórias (as tiras) foram omitidas. Mesmo assim, a revista publicou algumas obras-primas, como a aventura de Joe Cometa "O Caso dos Feijões Envenenados", uma das melhores do estúpido ídolo de Ferdinando.

Inicialmente, a revista era impressa em duas cores, passando para preto e branco depois e tornando-se colorida nos últimos números. Na década de 70, sairia ainda em uma coleção de 15 livros através da Editora Saber, com o nome A Familia Buscapé. Em 1975, aRio Gráfica relançou a revista Ferdinando em formatinho, durando apenas 6 edições. Além disso Ferdinando apareceu em vários números do Gibi Semanal e em alguns almanaques do Gibi Nostalgia. A edição de n 3 de Gibi Especial apresentou a primeira história dos shmoos, porém com remontagens. A edição 15 de A Familia Buscapé (Saber) trouxe a primeira parte da segunda aventura com os Shmoos, porém com a revista cancelada, o leitor brasileiro ficou sem saber como terminou a segunda vinda dos Shmoos ao "maravilhoso mundo capitalista da América do Norte".



Não é uma das revistas mais colecionadas da Rio Gráfica, mas tem um público fiel. Os números mais raros são os vinte primeiros; os restantes são relativamente fáceis de encontrar. E uma coleção relativamente pequena e não tão cara quanto outras da Rio Gráfica, mas relativamente difícil de aparecer para negociação, já que há poucas coleções em circulação. Ainda assim, os preços são relativamente mais baratos que outras revistas do mesmo período e que existem em maior quantidade pelo Brasil afora. Para o colecionador que encara os quadrinhos como investimento, uma coleção de Ferdinando completa pode representar um bom negócio no futuro, se ele souber negociá-la na ocasião certa com alguém realmente interessado; contudo, se for para fazer trocas, o proprietário poderá sair perdendo. Para o colecionador que visa a qualidade das histórias, o melhor mesmo é selecionar alguns números e tentar alguma reedição em língua estrangeira, onde poderão ser encontradas histórias realmente importantes. As edições da Saber publicaram histórias famosas como o próprio casamento de Ferdinando, mas a tradução deturpada e as remontagens desestimulam colecionador mais exigente.
  • postado Nikki Nixon às 5:36 AM